CAPPAZ - Confraria Artistas e poetas pela Paz




Editorial/04-2009
A Poesia do Homem-Comum...
Autoria: J.J. Oliveira Gonçalves




Cada qual com seu cada um. E cada um diz o que pensa. (Ou o que pensa que pode...) Também gosto da liberdade de expressão, de dizer o que penso. Todavia, há momentos em que a prudência convida a pensar para dizer. Principalmente quando esse dizer – e o que dizer – envolvem sentimentos. E sentimentos são as várias roupagens da emoção. Eis que a palavra é a arma mais poderosa de que dispõe o homem. Pode equivaler-se ao fio fino e afiado de uma espada. Ou à sedosa e graciosa pétala de uma flor – para falar à Amada. Portanto, como dizia minha vó: cautela e canja de galinha não fazem mal... Ou, como dizia, ainda, minha mãe: devagar com o andor que o santo é de barro...

Minha intimidade com as palavras se deu ainda na Infância. Pois fui para o grupo escolar já alfabetizado: mais do que “acolherar as letras” – ou seja, soletrar – eu já lia e escrevia. Então, quando a professora me chamava para a leitura, eu lia. E quando ela levava a turma à famosa composição, eu escrevia. Assim, me dava bem lendo e escrevendo. Além de receber elogios... Apesar dos vestígios concretos de pobreza, nada me faltou, desde que de mim mesmo tive consciência: o alimento, a coberta, o brinquedo, o carinho... E, tendo tido professora particular, (antes de ir para o grupo escolar), não me faltou o material escolar adequado. Felizmente, desde as vésperas dos bancos escolares, não me faltaram a revistinha e... o livro! Aliás, conseqüência do incentivo constante de meus pais, principalmente de minha mãe, sempre preocupada com o saber ler escrever. Que ela mesma dizia, (e lamentava!), chegara a conhecer tempos duros, minguados, em que a própria comida era terrivelmente escassa, em que a família – literalmente pobre – alimentava-se com imensa dificuldade... E confessava sua maior mágoa: não ter podido freqüentar a escola. (Até hoje, as imagens que, felizmente, não vi, nem vivi, constroem-se em minha mente... E até por isso, também, sinto imensa compaixão pelos irmãos de mãos vazias, de bocas famintas, de olhos perdidos... Esses que parecem não contar nas polpudas contas dos governantes da rica Terra Brasilis...)

Mas, voltando à questão do valor da palavra... A palavra exalta. Todavia, igualmente fere, machuca. É preciso muito cuidado ao se acionar o gatilho dessa arma. Impõe-se saber seu significado mais profundo. Individualmente. E analisá-la, coletivamente, no texto em que se insere. Isto é: no contexto. Obrigatório é uma certa intimidade com a semântica. Em jornalismo, inclusive, deve-se estar ciente que uma vírgula pode redundar em processo judicial, em crime contra a honra. Pode acobertar (ou explicitar!) injúria, infâmia, difamação. Alguém pode se achar prejudicado. Exigir direito de resposta. Ou retratação. Apesar dos pesares, textos, por aí, carregam pesadas cargas de TNT. São dinamite pura. Bomba-relógio. Explosivo plástico... Sem exagero e, embrenhado no mundo, (ou na guerra?), das palavras, diria que há textos, por aí, que são impiedosas armas químicas. São mesmo hackers a deletar vísceras alheias... Vísceras que podem ser metáfora para trabalho, sonho, doce ilusão... Às vezes, disfarçados sob o pretexto benfazejo(?) de crítica. Outras tantas, acoberta-se, sob uma visão intelectualóide, onde o narciso e o cabotino dão-se as mãos em cínico personalismo. Seja como for, tanto lá como cá, joga-se o jogo da dissimulação. E espera-se, ansiosamente, pelo resultado. E, acreditando, ou não, no que disse ou escreveu, crê(?) que daí decorrerão aplausos, loas, e o amém ao guru que não existe...

Pois, escrevi três parágrafos para, começando mais um, me atrever a afirmar que não há poeta sem poesia – embora a poesia independa de poeta. (Que ela, por si só, já é!) Para dizer que o homem comum também é recipiente poético... Que a poesia também percorre os escaninhos íntimos do homem comum. Ela pode estar em seus músculos, seus nervos, seus ossos, suas veias... No cotidiano do fero jogo da Vida, a poesia não dorme – nem à noite... Aliás, aí é que ela, tantas vezes, se mostra mais viva do que nunca: mais loquaz, mais voraz, mais contundente. (Talvez, a culpada seja a Lua... Ainda que a noite, muitas vezes, a esconda em abismos de escuridão...) Como bem disse, (e sobre isso já falei e escrevi inúmeras vezes!), o belíssimo poeta francês André Chénier – Clássico e precursor do Modernismo francês, além de ativista da Revolução Francesa: A arte faz versos. Só o coração é poeta.

Evidentemente, a Literatura é a arte pela palavra. É a linguagem colorida. Figurada. Argila, por excelência, do fazer poético: a metalinguagem. Sabendo-se manejá-la, tem-se o pincel do pintor para pintá-la. Ou a batuta do maestro para regê-la. Ou o cinzel do escultor, para esculpi-la, enfim... Entretanto, tal não basta. Não bastam os instrumentos. Ou os recursos. Se não colocar, aí, o coração. A emoção. Fragmentos, que sejam, de sua Alma... O coração do poeta. A Alma do artista. É indispensável colocar, aí, creio, seus viscerais abismos íntimos. Pedaços de si. Lascas de seu ser poeta. De seu ser verdadeiramente artista. Sua obra deve embeber-se de seu suor. Impregnar-se de seu cheiro. Ter a intermitência de suas nuanças interiores. De suas Dores. De seus Amores. Mesmo de suas misérias. Ou riquezas. Sua obra deve conter seu eu: único, ímpar, indissolúvel – a dissolver-se entre as paralelas dos versos... Aqui, entre esse amaziamento espetacular, amoroso e imperioso do artista com sua obra, parece-me caber, perfeitamente, aquele selo, ou aquele pacto – se romântico, igualmente indestrutível! – com que Alexandre Dumas imortalizou os Mosqueteiros do Rei: Um por todos! E todos por um! Ou como jurava aquele que tomava assento, à Távola Redonda do místico Rei Arthur – a Espada à frente e à altura do peito: Tua Vida... minha Vida! Isso se dava no Reino de Camelot.

O homem comum também faz poesia. Chego ao exagero de pensar que Deus ofereceu a todos os homens a Dádiva e a Dor do Estro. Todavia, somente alguns tiveram a coragem de abraçar a Lira, que, tal qual o Cálice, transbordava conseqüente sofrimento... Creio que, na minúscula Harpa, tais loucos vislumbraram, igualmente, rasgos fascinantes de Beleza e Crescimento Espiritual. O homem comum pode não saber se expressar. Ter dificuldades com as palavras. Isso não o impede, porém, de enxergar imagens, de captar metáforas. Que estas são produtos de Emoções, de sentires. O sorriso, a lágrima, a Dor, a alegria, o sonho, a decepção, a compaixão, a rebeldia, a ilusão, a realidade transmutada, enfim... Esse homem comum, simples, do dia-a-dia, também pode ter sua percepção alterada – assim como um médium. E veja-se que poeta e médium são bem parecidos... Ambos têm a percepção alterada. Ambos podem ser meios... São seres metafísicos. Quer dizer: estão além daqui... Penetram outros mundos... Viajam em poéticas e enigmáticas Galáxias...

Sou homem comum. Nasci homem comum. Vivo como homem comum. Mas também nasci poeta. Por isso sou poeta, também. E procuro (sobre)viver como poeta. Tenho as percepções alteradas. As Emoções alteradas. Sofro de hipersensibilidade. E de meus versos faço Pétalas – as mais singelas e mais frágeis... E deles faço, quando me manda o coração, contundente Espada! Desejo, sinceramente, espalhar alguma fragrância dessas pétalas no cotidiano poluído... Entretanto, às vezes, obrigam-me a desembainhar a Espada... Então, deixo que meus versos gritem: Um por todos! E todos por um! Por outro lado, em Camelot, um Cavaleiro não pode abdicar de sua Vida... Menos, ainda, da Vida do outro – que jurou defender com a sua. Não pode acovardar-se. Envergonhar ao Rei!

Ah... sou poeta e homem comum. Homem comum e poeta. Sou o do lugar comum. E o de além dele. Meu olhar de homem comum sobre a Vida é um olhar de tristeza. Embebido de nostalgia. Distante. Melancólico. Meu olhar de poeta sobre essa mesma Vida também é assim. O homem comum se socorre no poeta. E este dá vazão aos versos mudos do outro. (Íntima confraria!) Penso que quem trouxer no peito um coração regado à Poesia, poeta ou poetisa é. Que a Vida, por si só, já é Poesia. Concreta! Basta enveredar por seus meandros com os Sentidos acesos e aprender veladas Lições... Nelas, Deus escreveu Seus Mandamentos. Disse ao homem, ainda, que cuidasse dos irmãos-animais, que respeitasse a Mãe-Natureza. Eis que a própria Criação – sem mácula e sem mutilação! – é o mais Belo, Pungente e Luminoso Poema de Amor que Ele nos deu! E continua a recitar para o Planeta – apesar dos pesares! E, tendo o homem comum aprendido tais Lições, será inatacável Poeta. Porque as aprendeu e apreendeu com o Coração. Ainda que seja um poeta mudo. Poeta do silêncio com seu poema mudo! A encantar a Alma solitária com um mundo furta-cor e silencioso. Que o silêncio é o Vácuo, o ventre vazio onde se alberga o feto poético... Sob uma canção de ninar – diáfana e comovente... O Silêncio é o Lugar Sagrado – misterioso e ausente! – onde o bardo vaticina, profetiza... Onde ele mesmo, (feito o Outono!), se metamorfoseia em Poesia... O Silêncio é o Mestre que conduz o Homem-Comum-Poeta pelo Caminho-em-Beleza dessa Arte do Coração! Canção que o coração-poeta canta... e a Alma entoa!

Porto Alegre, 14 de setembro/2004. 12h11min
J. J. Oliveira Gonçalves
Presidente de Honra da CAPPAZ



















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