CAPPAZ - Confraria Artistas e poetas pela Paz




Editorial/02-2010
A Mensagem de Amanda
Autoria: Eloísa Antunes Maciel




Amanda encontrava-se, em visita, no apartamento de uma tia - avó.

Inicialmente sentada entre sua mãe a anfitriã, observava à sua frente um tapete em que cinco meninos estavam sentados em círculo, na sala de visitas.

Um desses meninos era seu irmão e, um outro, seu primo, ambos com idade próximas à sua : 6 anos. Os outros três situavam-se na faixa etária entre 9 e 14 anos.

O grupo dos cinco meninos realizava uma série de montagens com pecinhas de “lego”, produzindo e recriando navios, aviões, foguetes e outras “construções” do gênero.

Amanda apenas observava o grupo. Sentada entre sua mãe e a tia que visitava, mantinha os pezinhos juntos e as mãos cruzadas sobre os joelhos... No entanto, após alguns minutos, a menina se levantava, de mansinho, e lentamente se deslocava para o tapete onde os meninos faziam as suas montagens bélicas... Tocou levemente o ombro do mais próximo e este, embora hesitante, “concedeu”-lhe acesso ao grupo que, dada a sua inclusão, já não era mais um quinteto. Enquanto Amanda montava tranquilamente algo semelhante a um rosáceo, os meninos a olhavam com certa estranheza...

Decorridos cerca de vinte minutos, os ex – integrantes do quinteto armaram uma estratégia: dispersão total e dissimulada... Em razão dessa debandada, Amanda se dirigiu à sacada do apartamento, passando a contemplar a paisagem à sua frente... Seu irmão, que a havia seguido, e tocou-lhe o ombro. Surpresa, Amanda se desequilibra e quase cai para trás... Esse prosaico fato teria passado despercebido não fora o alerta do primo, ex-integrante do quinteto... A seguir, esse mesmo primo passava a realizar um certo malabarismo, exibindo destreza e velocidade incomuns. De posse de uma peça de lego, o menino passou a deslocá-la rapidamente de baixo para cima, sobre um móvel da sala de visitas. E na medida em que esse jogo progredia, ouvia-se um som cuja intensidade anunciava o avanço em relação à altura: tic! tac!

Após apanhar uma das peças deixadas sobre o tapete, Amanda pediu para “entrar” no jogo do primo. E a cada tic efetuado pelo menino, contrapunha um tac com a mesma rapidez e destreza por ele demonstradas, obrigando-o a esforçar-se por uma melhor performance. A essa altura, sua mãe ordenou que ela deixasse de participar do jogo, pois entendeu que a filha não tinha o direito de imiscuir-se no “jogo do menino”...

Num momento seguinte, o grupo dos cinco meninos era refeito e rumava em direção ao computador a fim de divertir-se com jogos de guerra e similares. Amanda seguiu o grupo e manifestou sua intenção de participar dessa nova atividade.

Sem poder rejeitar a “estranha”, um dos meninos lhe ofereceu – lhe uma pequena e frágil cadeira, colocada em posição oblíqua em relação à tela do computador... Amanda não podia visualizar com nitidez o “jogo dos meninos”, mas permaneceu atenta. De repente, ouviu-se um baque. A mãe e a tia acorreram. A cadeira havia tombado juntamente com sua ocupante...

Ainda no chão, Amanda vertia uma discreta lágrima, enquanto os meninos denotavam ignorar o pequeno acidente. Após ajudá-la a levantar-se, sua mãe sugeriu que ela deixasse a sala do computador, uma vez que a sua cadeirinha não era segura e poderia cair novamente. Mas menina resoluta, embora tranquila, respondeu:

-- Agora não, mamãe!... Já conheço a cadeira... (e ao olhar em direção aos meninos, não deixou transparecer a intenção de culpá-los pelo acidente)...

Passados mais alguns minutos, o grupo tornou a dispersar-se, talvez devido ao tédio causado pelos jogos repetitivos. Amanda foi a última a retirar-se, seguindo o grupo. No entanto, em sua face transparecia uma mensagem que, se verbalizada, poderia ser expressa nos seguintes termos:

-- Não me excluam hoje, pelo fato de eu não ser menino; nem amanhã, em razão da minha condição feminina...

Não desejo forçar minha inclusão no grupo de vocês, e nem os responsabilizo por conceitos estereotipados que tenham assimilado... Eu irei ao encontro de vocês, sim, mas com dignidade, sem ressentimentos ou preconceitos.

Procurarei apenas ocupar o meu espaço. Com essa minha atitude, pretendo contribuir para a construção de um mundo pleno de paz e cooperação recíproca; um mundo em que nós, homens e mulheres, possamos co - atuar solidários e participativos... Acredito que, irmanados na paz e na cooperação, poderemos construir esse “novo mundo”, através de edificações que, certamente, irão ultrapassar às que hoje iniciamos com pecinhas de “lego”...

E que, solidários, possamos construir um futuro melhor para todos!



















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