Jonas Krischke Sebastiany

Nascido em Sobradinho/RS e radicado em Brusque desde 1997, Jonas Krischke Sebastiany é médico do Trabalho, Diretor Técnico da CONSULMED e professor universitário.
Iniciou suas incursões poéticas aos 16 anos em uma típica paixão adolescente.
Depois disso, persistiu na tentativa de reproduzir suas emoções no papel e na busca incessante de palavras que, uma vez ditas, mudassem o mundo.
Tem como principal vertente poética a sutil ironia dos poemas de Mário Quintana.
Escreveu - Brincando de Democracia, primeira experiência em prosa; Espreitando Extrema mente e Comportas Sem Janelas, todas em poesia, além de Apontamentos de Anatomia e Fisiologia Humanas para o Técnico em Enfermagem (Didático). Prepara, para lançamento, os livros: Cumplicidade-Coletânea de Poesias, Crônicas e Fábulas e Medicina Ocupacional na Prática Empresarial, livro técnico.

Confrade Apoiador.





APOLOGIA DO UMBIGO

A cultura do individualismo é o traço mais marcante das relações interpessoais na atualidade. Isto se evidencia ainda mais no convívio de afeto homem-mulher. A antiga máxima de Saint Exupèry na qual “és responsável por aquilo que cativas” foi substituída por “cada um por sí” e “eu sou assim mesmo”. Esta postura intransigente assumiu ares de verdade absoluta e desencadeou uma prática social predatória para importantíssimos componentes do cenário amoroso. O romantismo, o companheirismo, a busca de antecipar-se ao desejo do outro são essenciais para que vivencie-se a cumplicidade em sua plenitude. Um diálogo rico e freqüente, pequenos atos diários de carinho e uma vida sexual prazerosa são a fórmula básica para um amor que se queira vivo. Estou convencido de que ninguém (ou muito poucos) conseguem chegar a um relacionamento harmonioso sem todos os ingredientes que compõem a cumplicidade.
A sexualidade está liberada, mas a afetividade não. As pessoas tem medo de gostar, porque não sentem-se estruturadas para o risco de não serem correspondidas. E, muito mais grave, não sabem lidar com quem lhes oferece amor, como se isso evidenciasse ainda mais sua absoluta incapacidade de administrar esse sentimento. Revoltam-se, sentem uma inveja que angustia. É triste ver o rumo que as relações vão tomando. As pessoas cada vez mais retraídas, escondidas atrás da tela de um computador ou trancafiadas dentro de seus armários inexpugnáveis na esperança de estarem a salvo dos seus próprios conflitos. Refugiam-se em seus vários compromissos quando um dia pactuaram espontaneamente que estavam comprometidos um com o outro. Surpreendo-me ao observar atitudes minhas que são claros indícios de que também venho preparando-me para este novo tempo. Cada vez mais procuro reforçar minhas estruturas para bastar-me em mim mesmo. Duro processo adaptativo. Pequenas amputações diárias, retirando o excesso de bagagem para seguir em frente. Às vezes alguns pedaços preciosos vão ficando pelo caminho. Coisas que a gente gostava, mas que o “5-S” da vida determinou que não tinham mais utilidade nos tempos atuais. Pergunto-me até quando estes descartes progressivos vão avançar sob pena de nos descaracterizar como indivíduos únicos e originais.
Cada vez mais autômatos, cada vez mais parecidos em nossa mediocridade conveniente, a reproduzir conceitos individualistas uniformes, que afastam-nos da perigosa experiência do amor absorto. Absoluto.  Quase incondicional. Será que ninguém mais sente prazer pelo desafio maior de conquistar a mesma pessoa todos os dias? Será que não vamos mais ver alguém curtir a alegria de nutrir diariamente um amor verdadeiro? As pessoas não desejam mais cuidar umas das outras! Homens e mulheres perderam grande parte dos referenciais de seus papéis conjugais. Dividir, doar-se, são palavras que sumiram como que por encanto do nosso dicionário amoroso. Parece não caber dois sob os holofotes do palco da vida. O espetáculo resume-se a uma dança solo. Esforçamo-nos para não enxergar que, mais dia, menos dia, vamos precisar uns dos outros. Nem todas as cirurgias plásticas, atividades físicas e rigores alimentares detém o tempo. Dedicamo-nos para  adiar a velhice e fazemos de tudo para que ela nos encontre com qualidade física. Mas tanta vida para compartilhar com quem, se não nos propomos a experimentar o risco de gostar de verdade? Amor é inspiração na paixão, transpiração no sexo e manutenção na troca. Ninguém quer abdicar de nenhum espaço seu, mas quer flexibilidade do parceiro para conceder sempre que necessário. Doação mútua, consciente dos objetivos em comum, é prática em desuso, que caducou com o passar dos anos. Já não sei mais se alguém ousaria resgatar estes conceitos.
Aliar-se à razão para perpetuar a emoção é uma obviedade sem espaço nas mentes egoístas e corações gelados que produzimos em série. Difícil para mim acreditar que alguém possa ser feliz sem sentir imenso prazer em proporcionar felicidade a quem se ama. Quem abdica deste prazer ainda não conheceu a exata dimensão da palavra amor. Resta o consolo de conhecer-se a si mesmo, pelo menos a anatomia do próprio umbigo, já que o relacionamento em si acabou relegado a uma das últimas posições na escala de prioridades. Muito antes vem a obsessão pelo reconhecimento do sucesso profissional, a qualificação pessoal competitiva, o culto ao corpo, o lazer como obrigação para enfrentar todo esse stress. Restou ao convívio amoroso o tempo que sobrou. E, como toda a sobra, é o tempo menos qualificado, aquele oferecido ao final de todo o desgaste acumulado, com grandes chances de se tornar a válvula de escape disponível para a drenagem de toda a fadiga física e psíquica resultantes. Ninguém está disponível para o outro, buscando uma composição equilibrada de prioridades. Escondem-se atrás da falta de tempo para seus milhares de compromissos. Não é a toa que as relações estão cada vez mais superficiais. E optar por ser romântico não exclui a necessidade de ter senso prático. Nesta altura dos acontecimentos, seria bom observar se as pessoas não estão confundindo auto-estima e amor próprio com individualismo e egocentrismo puro e simples. Amor afetivo é diferente de amor efetivo.

Dr. Jonas K. Sebastiany











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