Maria Julia Guerra
(Maju Guerra)

Nasceu no Rio de Janeiro, reside em Salvador. Sempre gostou de escrever e de compor. Chegou a vencer um “concurso de trovas” quando adolescente. Por contingências da vida, com o tempo dedicou-se apenas a outras atividades, mas continuou leitora voraz. Incentivada por uma amiga querida, a Gui Oliva, voltou à escrita há poucos anos. Graduada em Biblioteconomia (UFF) e Direito (UFBA), aposentou-se como auditora fiscal da RFB, hoje trabalha como terapeuta e astróloga. Contadora de histórias, eterna aprendiz, amante da paz e do respeito a tudo e a todos, crer ser um ser de fé em perpétua mutação.

Confreira Efetiva.






Borboletas e Lagartas
Maju Guerra

O casal decidiu morar em outro estado, melhores oportunidades de emprego. A moça se entusiasmou com a mudança. Finalmente uma casa, sempre havia morado em apartamentos. O lugar era um espetáculo de aconchego. Quando abriu o portão e entrou, sentiu-se abraçada.
A casa não era lá muito grande, mas o jardim e o quintal, ainda que um pouco abandonados, eram bastante promissores. Depois das arrumações, procurou jardineiro. Encontrou seu Cícero que desempenhava o ofício com o coração. Satisfeita, começou a ler e a estudar sobre jardinagem, clima, qualidade de plantas, se preferiam o sol à sombra, se aceitavam ou não o vento, as que gostavam de mais água... Imaginava o jardim pronto, as pessoas parando para admirá-lo, o perfume das flores se esparramando pela rua, por dentro da casa...
Com a terra adubada, começou a buscar e a comprar as mudas das plantas. A terra se abriu cheia de boa vontade para receber hibiscos, jasmins, manacás, buganvílias, zínias, antúrios, violetas, margaridas, crisântemos, algumas já com flores. Junto à parede da garagem, colocaram um pé de alamanda amarela. Quando crescesse e florisse, todo o telhado ficaria coroado de flores douradas.
Passado mais um tempinho, o jardim foi inaugurado, uma lindeza de se ver. De agora em diante, era preciso apenas cuidar da vida que havia sido gerada.
A moça e o jardineiro tratavam o jardim com mãos de fadas. Cada vez mais flores e cores surgiam, odores deliciavam o olfato de quem chegasse, a moça podia se orgulhar da sua cria, sem modéstia alguma.
Um dia, deslumbrou-se com as borboletas de várias cores e tamanhos voando por todo o jardim, em volta dela, pousando nas folhas... Parou para contemplar o espetáculo da cena. Sem sombra de dúvida, as borboletas também se mostravam encantadas com o jardim.
Passado o momento, seu Cícero comentou que, borboletas e flores eram obras divinas, ele concordava. No entanto, ela deveria se lembrar que as borboletas deixariam seus ovos, uma questão de tempo o aparecimento das lagartas. Um ataque de lagartas estava previsto, continuou falando, ele só esperava que não fosse maciço, poderia não sobrar planta sobre planta. Já havia presenciado trágicas devastações causadas pelas lagartas. A moça se arrepiou dos pés a cabeça, não desejava imaginar o aparecimento de uma lagarta, ainda mais de um bando. Seu jardim ficaria a salvo dessas criaturas, disse a seu Cícero com firmeza. As lagartas tomariam outros rumos, havia tantos outros. Atrás da casa, por exemplo, um matagal cheio de folhagens as esperava, por que não se alimentar por lá? Que os Anjos digam Amém, declarou o jardineiro. O assunto morreu por ali.
Após umas semanas, a moça percebeu buracos nas folhas da vistosa alamanda amarela. Chamou seu Cícero, ele vaticinou: lagartas. Ela ficou parada, em estado de choque. Ao se refazer do susto, perguntou o nome do praguicida a ser comprado para acabar com todas elas. De posse do nome, sentiu-se mais tranquila.
No dia seguinte, chegou do comércio e decidiu vistoriar o jardim. Ao se aproximar da alamanda, o pânico a dominou. A planta estava praticamente careca, quase sem folhas e flores, uma hecatombe acontecera com a cumplicidade da noite. A moça declarou guerra aos famintos bichos sem consideração. Jurou que iria dar o troco, ora se não iria. O jardineiro lhe avisou que deveria ir com menos sede à fonte, conselho desconsiderado. Os dois findaram por encharcar todas as plantas com o remédio mortal. A ação descartou completamente a devastação do restante do jardim. Lagartas, nunca mais, ela se sentiu vingada.
Com o decorrer do tempo, a alamanda amarela já recomposta, debruçava-se sobre o telhado da garagem. O jardim continuou lindo e perfeito.
Em uma manhã ensolarada, borboletas e borboletas coloridas sobrevoavam os jardins vizinhos, o matagal atrás da casa, mas não o seu jardim. A moça ficou triste. Com tanto pesticida, as borboletas não se aproximariam das suas plantas. Todas ficariam em segurança, porém a sintonia mágica de borboletas e flores também não existiria. Que dilema! Sem lagartas, não haveria borboletas. Sem borboletas, perdia-se o espetáculo insubstituível de graça e de beleza protagonizado por elas. Precisava pensar bastante no assunto, descobrir uma solução aceitável e justa para ambas as partes.
Seu Cícero apareceu, ela comentou sobre o acontecido e sua grande decepção. Naquele ano, deixariam de colocar veneno no jardim para matar lagartas, concluíram. Fatalmente, no outro ano, as borboletas apareceriam, em consequência, as lagartas também. Naquele ínterim, haveriam de buscar uma forma de harmonizar a existência de lagartas e borboletas. Se as lagartas fazem parte do ciclo de vida das borboletas, as coisas são assim mesmo. A sabedoria da natureza não admite discussões. Seria necessário, tão-somente, buscar o ponto de equilíbrio, porque em tudo na vida existe um.

Maria Julia Guerra.
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Borboletas e Lagartas (Conto). Recanto das Letras em 08.04.2010